todas as manhãs são iguais
era cedo mas era alguma coisa suave. pelo menos um tempo e estava vivo (então morto ao mesmo tempo). o café amargo esperava pacientemente. só o café espera, o restante quer chegar à algum lugar. é cedo: 6 e alguma coisa. água, rosto e banheiro. caminhar até lá, depois até as roupas. nas cortinas paradas não venta. amarelo pelo quarto da cama e cobertor.
ele sabia que todos os lugares eram, mais ou menos, o mesmo lugar. agora pouco sonhara com uma faca afiada, a mulher e os dois filhos. dois. estancadas nos estômagos, três. com gritos (porque?) não! esquece os gritos. surdez total… mas eles não morriam, por mais que houvesse a faca pra tal. não morrem, nunca vão morrer. quando morrerem vão continuar na casa. a casa já é habitada por fantasmas e espíritos malignos. ele tem certeza.
ele aos seus 19 anos sentiu uma namorada queimar no carro. estava viva até queimar… seus gritos ecoam hoje, na sala, no travesseiro, na laje do box do banheiro, no reflexo do cano da pia e no fundo de um prato de porcelana. ecoam por quantos hojes forem necessários até silenciarem no escuro que vem de dentro. de dentro dele que toma café como se fosse parafuso.
era cedo mas eles já acordavam. e estragariam seus dias, cada um à sua maneira. o filho, talvez, tenha um dia razoável. ela estava de pé, querendo café e dando seu bom dia torto e bobo. arrastando-se. ele observa com nojo. ele ainda a olha, 20 anos depois dela ser bonita. mas ele não liga, não desde o dia que assistiu o último pornô da vida, talvez 5 meses atrás. trepavam mecanicamente uma vez por semana, geralmente aos sábados, dia que o filho mais saía. ela parecia gostar, não muito. pouco. ele fingia gostar um pouco mais. não era péssimo.
o filho pensava em namorar – pensava que o que pensava era pensamento, mas era sonho. tudo sonho de moleque com 16 pra 17 anos. acreditava no amor ainda, essas e naquelas babaquices que bandos de escritores do século retrasado inventaram bêbados. os realistas ainda tentaram ser realistas, mas todo mundo estava em transe. ainda estão. o filho perdia tempo com poesia, se perdia nos detalhes do mundo. não é isso o que importa, ele sabe. sabe que se você se perde nos detalhes demais, o grosso da vida vai embora. ele vai de qualquer jeito. ele não sabe mais o que sabia.
ela tomando o café. ela tomando café na cama 10 anos atrás, com o reflexo do sol nos olhos, a luminosidade entrando e fundindo tudo em sua nuclearização absoluta. as formas deformadas no branco coladas por dimensões e graus. quando o dia engasga a noite. a paz de morar dentro dela e ela dele e tudo que havia em volta era o quarto mundo nosso. nosso, nosso. e a luz. as cores vivas por todos os lados, cada tom era nítido como o é o sol de braços abertos ao horizonte. ela tomando café na cama 10 anos atrás, 11 anos atrás, 12, 13… dedos miúdos, juntas delicadas. pele fina. tantos pequenos jeitos macios. o sorriso, a conversa. o sorriso, os olhos apertados. valia cada manhã.
todas iguais. ela tomando café hoje, só lá tomando. só é preciso azul, verde e vermelho. os sapatos e a camisa passada, no lugar. manhãs iguais. te ligo pra dizer se venho almoçar em casa. todas as manhãs iguais. tchau. não diz que ama. não ama nada mais além de si mesma.
ele dando tchau 10 anos atrás… abraços uníssonos. desejo de completar fantasias. ter uma casa, um filho ou filha… mas ele não sabe mais, nem se já soube um dia. todas as manhãs são iguais porque no final todas as pessoas são iguais. assim cai o mundo ao quadrado da velocidade que o almoço volta para fora de você e que dentes voltam para fora de você que você implode e só voa merda num raio de 25 metros no fim não há outra coisa se não você e o fim.
ele acha que deus ri todo tempo lá de cima, como visse tudo como um partida de The Sims – afinal, só estamos aqui, mergulhados em estupidezes diárias num espaço sem teto.